segunda-feira, 1 de março de 2010

O tamanho da dor

O tamanho da dor vai depender da leveza com que você espera ela passar. Talvez sentado e paciente. Talvez firme e ponderado. Talvez aflito e indeciso. Talvez sem pensar, o que sempre parece uma boa opção.

O tamanho da dor vai depender das suas companhias. Do quanto elas te façam rir e gargalhar alto, sufocando a tristeza e a angústia. Do quanto elas consigam te manter afastado dos problemas. Do quanto elas te façam minimizar as dúvidas só por se fazerem presentes.

O tamanho da dor vai depender do quanto você pensa sobre ela. Se muito, ela tenderá a aumentar e te engolir. Se pouco, ela poderá te surpreendar. Se apenas o necessário, ela se manifestará, provavelmente, num domingo chuvoso ou numa quarta-feira de cinzas.

O tamanho da dor vai depender dos outros sentimentos que você somar a ela. Pode ser a saudade, o que é absolutamente comum. Pode ser a raiva e o orgulho, o que tende a fazê-la piorar. Mas pode ser simplesmente o amor. Nesse caso, o melhor é deixá-lo passar.

A bem da verdade, o tamanho da dor depende do quanto você precisa dela. Quando ela for inútil e desnecessária, descarte-a impiedosamente. Quando ela te ajudar a olhar pra frente, mastigue-a pausadamente. Pense. Chore. E siga.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

?

Porque ela nunca sabia o tamanho da tristeza, sentava e chorava como se fosse a primeira e a última vez. Quantas lágrimas lhe cabiam? Podia ser essa toda a dor do mundo ou era mais um dos seus rompantes dramáticos?
O fato era que algo lhe retorcia a alma. O medo de acordar e saber-se insensata. O espelho que lhe encarava e lhe questionava diariamente. O passo em falso e o passo inevitável.
Se a tristeza era grande, aprendia a remoer. Se era pequena, ria de si mesmo pouco tempo depois. O fato é que ela existia. E residia. E berrava. E passava. Será?

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

O quadro

- Aqui está o seu quadro - disse ela, quase que implorando para que ele perguntasse porque as coisas precisavam ser daquele jeito.
- OK - respondeu, desinteressado por mais uma das tantas discussões que se prolongariam infinitamente se aquele não fosse o momento do adeus.

A sala ficou vazia, quase soluçando.
A parede não rachou, mas doía como se tivesse passado por uma grande turbulência, um terremoto.
A simbologia daquele instante só dizia respeito a eles e ao que fariam dali para frente. Um novo rumo, talvez. Os velhos amigos, certamente. A chave, um achado pra algo novo, inexplorado.

Se olharam quase com um ar de remorso e de pena.
Era isso o que sentiam um pelo outro.
Planos desfeitos, momento de recuar. Momento de seguir, sim.

E naquele olhar vago, quase um meio termo entre a tristeza e a sensatez, morava a coragem, o alento, a certeza. Fosse como fosse, era hora de partir.

terça-feira, 2 de junho de 2009

O baú

O nosso corpo é um baú de preciosas memórias.
Começa com o cheiro, passa pelo toque e termina no poder auto-destrutivo das lembranças que não querem morrer.
Foi assim que decidiu por fim em tudo. Já estava acabado, mas havia muitas reticiências no duelo permanente que travara consigo mesma. "Tá, vou ter que abrir as portas".
Mas quem disse que a gente tem o controle da nossa própria história?
Naquele mesmo dia, uma coincidência fez ambos se encontrarem. E permanecerem. E se tocarem. E conversarem sobre intimidades como se o mundo lá fora não tivesse visto o que viu. "Tá, e agora?", refletia, emparedada pelos mesmos dilemas de sempre.
Era como se as mãos dele jamais tivessem deixado de lhe acariciar. Como se aquele abraço não estivesse tão distante quanto de fato estivera. Como se o último beijo tivesse sido dado no dia anterior, aquele em que mal se cumprimentaram. Ela tinha certeza que o mundo parara naquele instante.
O corpo, baú de preciosas memórias, não deixou que as lembranças amargas estivessem entre eles naquele dia/noite de reencontro. Porque tudo era tão doce, tão intenso e tão deles, que nada seria capaz de fazê-la querer voltar atrás.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Ela me deu feliz ano novo e eu chorei. Chorei mesmo, porque sabia que não estava no meu lugar.
Lembro que mal consegui falar, de tristeza por estar longe dos meus. E depois sorri, por senti-los presentes.
Talvez fosse o primeiro sinal das tantas barras que viriam depois. E era só o começo de um ano que me traria um bocado de desconfortos, mas outro tanto de convicções e ensinamentos.
Por isso se diz "feliz ano novo", mesmo quando não se está preparado para as sete ondas. Por isso falam tanto em mudanças, em passagem.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Reencontros

Eu era o único elo entre as duas naquele momento. Não sei ao certo quantos foram os dias de silêncio. Talvez mais de quatro anos, considerando que a minha formatura fora o último encontro. Ou dez, pensando no dia em que tudo ruiu.
O abraço foi contido, como tinha de ser, mas me coloquei durante muito tempo na posição dela. Rever o passado é algo mais difícil do que eu possa supor. Pisar naquele azulejo frio novamente, sentir aqueles paredes tensas vibrando em torno de si, perceber fotos, quadros, trechos de uma vida inteira bailando na sua frente. Por isso devo admirar a imponência daquele momento tão singelo.
Os olhos encheram de água. Em frações de segundos, mil mensagens foram transmitidas em um tímido aperto de mão. E eu era o único elo entre as duas naquele momento.
Horas mais tarde, pensei que minha mãe, mesmo numa posição desconfortável, enxergava os limites daquilo tudo. E queria o passado longe, como deve ser. Quando ele volta à tona, é difícil medir os sentimentos e é difícil também entendê-los. Sim, eu era o único elo entre as duas naquele momento. Eu era o presente e o passado, imortalizada no silêncio, no fim da cumplicidade, nas lágrimas de saudade.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Sobre santos

Enquanto o pai segurava a minha mão na sala de espera da clínica, eu olhava fixamente para dentro de mim. Muita coisa doía. O braço estava inchado, a cabeça não funcionava bem depois de horas de choro compulsivo, o coração se ressentia de uma semana de desapego. Era mais dor do que eu poderia suportar, mas eu não estava sozinha.
"Filha, você precisa rezar", ele me disse. Justo meu pai, que tantos anos renegou qualquer tipo de religião, mas que cedeu a ela depois de um susto sem tamanho. Talvez eu fosse ele naquele momento, em mais uma das tantas coincidências (e reincidências) que nos fazem pai e filha.
Pensei no assunto. Eu gosto de Nossa Senhora Aparecida, por ser negra. E de São Jorge, por ser guerreiro. Fora eles, não consigo me inspirar em nenhuma outra imagem, tampouco rezar, seja pra pedir, ou pra agradecer. Quando me dei conta que era agnóstica, sabia que enfrentaria problemas quando estivesse em meio ao caos.
No outro dia, uma devota de Aparecida esbarrou em mim. Pensei ser um sinal e comprei dela uma fita, um escapulário e uma oração. É bonita, a santa. Negra, forte e brasileira. Depois, comecei a pesquisar sobre São Jorge. Me disseram que ele também é santo da Umbanda. Gostei disso. Acho que me dou melhor com eles do que com os católicos fervorosos.
Não sei qual dos dois vai me ajudar. Não cheguei nem a rezar por eles, mas acredito que eles sabem da minha busca. Um deve ter olhado pro outro lá em cima. Talvez tenham exclamado algo do tipo "vai que é tua" diante da minha indecisão.
Meu pai sempre tem razão. E, sim, eu preciso rezar. Nem que seja pra mim mesma, pra que tudo isso passe logo.